TERRA DO NUNCA - Ópera do Malandro

A TERRA DO NUNCA
orgulhosamente apresenta
as letras e as músicas da peça
A ÓPERA DO MALANDRO
de Chico Buarque de Holanda ( outubro de 1979).
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Por favor, leia as notas finais.

Procurei fazer um trabalho especial que espero seja do agrado dos visitantes.
Nesta "folha", reproduzi, o texto constante do LP produzido pela POLYGRAN, datado de 1979.

Você poderá ler o texto de introdução e clicar no ícone da música correspondente, a música será executada e você poderá acompanhar a música, lendo a letra.


ÓPERA DO MALANDRO.
Música e letra de CHICO BUARQUE DE HOLANDA


A Ópera do Malandro é baseada na Ópera dos Mendigos (1728) de John Gay, e na Ópera dos Três Vinténs (1928), de Bertold Brecht e Kurt Weill. O espetáculo estreou no Rio de Janeiro em julho de 1978 e foi recriado em São Paulo, em outubro de 1979, sempre sob a direção de Luiz Antonio Martinez Correa.

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Pequeno roteiro introduzindo as canções:
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Estamos no Rio de Janeiro dos anos 40. O comerciante Fernandes de Duran e sua mulher, Vitória Régia exploram uma cadeia de bordéis, na Lapa, empregando centenas de mulheres.

O casal tem uma filha, Teresinha de Jesus, que é criada e envernizada com todos os requisitos para arranjar um casamento vantajoso.

O chefe de polícia, inspetor Chaves, controla a moral e os bons costumes da cidade e, por coincidência, aceita presentes e gratificações de Duran.

O contrabandista Max Overseas chefia uma quadrilha que age por ai, sem maiores embaraços, até que essas figuras se cruzam e a história dá no que dá.

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Antes de abrir o pano, o produtor do espetáculo apresenta ao público o autor desta ópera, um malandro chamado João Alegre. Vestido a caráter, João canta um samba que descreve a longa trajetória de uma pequena malandragem:

O MALANDRO (MPB4).

o malandro / na dureza
senta à mesa / do café
bebe um gole / de cachaça
acha graça / e dá no pé

o garçom no / prejuízo
sem sorriso / sem freguês
de passagem / pela caixa
dá uma baixa / no português

o galego / acha estranho
que o seu ganho / tá um horror
pega o lápis / soma os canos
passa os danos / pro distribuidor

mas o frete / vê que ao todo
há engodo / nos papéis
e pra cima / do alambique
dá um trambique / de cem mil reis

o usineiro / nessa luta
grita (ponte que partiu)
não é idiota / trunca a nota
lesa o Banco / do Brasil

nosso banco / tá cotado
no mercado / exterior
então taxa / a cachaça
a um preço / assustador

mas os ianques / com seus tanques
têm bem mais o / que fazer
e proíbem / os soldados
aliados / de beber

a cachaça / tá parada
rejeitada / no barril
o alambique / tem chilique
contra o Banco / do Brasil

o usineiro / faz barulho
com orgulho / do produtor
mas a sua / raiva cega
descarrega / no carregador

este chega / pro galego
nega arrego / cobra mais
a cachaça / tá de graça
mas o frete / como é que faz?

o galego / tá apertado
pro seu lado / não tá bom
então deixa / congelada
a mesada / do garçom

o garçom vê / um malandro
sai gritando / pega ladrão
e o malandro / autuado
é julgado e condenado culpado
pela situação.

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2) Fernandes de Duran, cidadão zeloso da lei, todas as manhãs exercita o seu hino, dura advertência aos contraventores do mundo inteiro.

HINO DE DURAN (Chico Buarque & A Cor do Som)


se tu falas muitas palavras sutis
e gostas de senhas, sussuros ardis
a lei tem ouvidos para te delatar
nas pedras do teu próprio lar

se trazes no bolso a contravenção
muambas, baganas e nem um tostão
a lei te vigia, bandido infeliz
com seus olhos de raio x

se vives nas sombras, freqüentas porões
se tramas assaltos ou revoluções
a lei te procura amanhã de manhã
com seu faro de dobermann

e se definitivamente a sociedade só te
tem desprezo e horror
e mesmo nas galeras és nocivo, és um
estorvo, és um tumor
a lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus

se pensas que burlas as normas penais
insuflas, agitas e gritas demais
a lei logo te vai abraçar, infrator
com seus braços de estivador

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3) A experiente senhora Vitória Régia Fernandes de Duran é responsável pela educação moral e física das profissionais admitidas pelo marido. Aqui ela fornece algumas noções básicas a uma recém contratada.

VIVER DE AMOR (Marlene)

pra se viver do amor
há que esquecer o amor
há que se amar
sem amar
sem prazer
e com despertador
como um funcionário

há que penar no amor
pra se ganhar no amor
há que apanhar
e sangrar
e suar
como um trabalhador

ali, o amor
jamais foi um sonho
o amor, eu bem sei
já provei
e é um veneno medonho

é por isso que se há de entender
que o amor não é um ócio
e compreender
que o amor não é um vício
o amor é sacrifício
o amor é sacerdócio

amar
e iluminar a dor
como um missionário

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4) Infelizmente, Duran e Vitória ficam sabendo que Teresinha, a filha única, a princesinha do lar, fugiu de casa para se casar com o estelionatário, muambeiro e inimigo público nº 1, Max Overseas. Daí o casal amaldiçoa a filha com uma canção desnaturada.

UMA CANÇÃO DESNATURADA (Marlene & Chico Buarque)

por que cresceste, curuminha
assim depressa, e estabanada
saíste maquilada
dentro do meu vestido
se fosse permitido
eu reverteria o tempo
pra reviver a tempo
de poder
ter ver, as pernas bambas, curuminha
batendo com a moleira
te emporcalhando inteira
e eu te negar meu colo
recuperar as noites, curuminha
que atravessei em claro
e só cuidar de mim

deixar-te arder em febre, curuminha
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
tratar uma ama-seca
quebrar tua boneca, curuminha
raspar os teus cabelos
e ir-te exibindo pelos
botequins

tornar azeite o leite,
do peito que miraste
no chão engatinhaste, salpicar
mil cacos de vidro
pelo cordão perdido
te recolher pra sempre
à escuridão do ventre, curuminha
de onde não deverias
nunca ter saído

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5) O casamento de Teresinha e Max será celebrado no esconderijo do contrabandista. Enquanto o padrinho não chega, Max apresenta a noiva a seus subordinados que, nas horas vagas, também são compositores. Chegaram mesmo a participar do último Festival de Presidiários da Ilha Grande. E agora dedicam uma canção inédita a Teresinha.

TANGO DO COVIL (MPB4)


ai, quem me dera ser cantor
quem dera ser tenor
quem sabe ter a voz
igual aos rouxinóis
igual ao trovador
que canta os arrebóis pra te dizer gentil
bem-vinda
deixa eu cantar tua beleza
tu és a mais linda princesa
aqui deste covil

ai quem me dera ser doutor
formado em Salvador
ter um diploma, anel
e a voz de bacharel
fazer em teu louvor
discursos a granel
pra te dizer gentil
bem-vinda
tu és a dama mais formosa e,
ouso dizer, a mais gostosa aqui deste covil

ai, quem me dera ser garçom
ter um sapato bom
quem sabe até talvez
ser um garçom francês
falar de champignhom
falar de molho inglês
pra te dizer gentil
bem-vinda
és tão graciosa e tão miúda
tu és a dama mais boazuda
aqui deste covil

ai, quem me dera ser Gardel
tenor e bacharel
francês e rouxinol
doutor em champinhom
garçom em Salvador
e locutor de futebol
pra te dizer febril
bem-vinda
tua beleza é quase um crime
tu és a banda mais sublime
aqui deste covil

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6) Quando finalmente o padrinho, os convidados de Max saem correndo. É que se trata do inspetor Chaves, o famigerado Tigrão, o chefe de polícia que, pelo que se vê, é amigo de infância de Max.

DOZE ANOS (Moreira da Silva & Chico Buarque)


ai que saudade eu tenho
dos meus doze anos
que saudade ingrata
dar banda por ai
fazendo grandes planos
e chutando lata
trocando figurinha
matando passarinho
colecionando minhoca
jogando muito botão
rodopiando pião
fazendo troca-troca

ai que saudades que eu tenho
duma travessura
o futebol de rua
sair pulando muro
olhando fechadura
e vendo mulher nua
comendo fruta no pé
chupando picolé
pé-de-moleque, paçoca
e disputando troféu
guerra de pipa no céu
concurso de pipoca

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7) Terminada a cerimônia, os recém casados cantam

O CASAMENTO DOS PEQUENOS BURQUESES
(Alcione & Chico Buarque)


ele faz o noivo correto
e ela fez que quase desmaia
vão viver sob o mesmo teto
até que a casa caia
até que a casa caia

ele é o empregado discreto
ela engoma o colarinho
vão viver sob o mesmo teto
até explodir o ninho
até explodir o ninho

ele faz o macho irriquieto
e ela faz crianças de monte
vão viver sob o mesmo teto
até secar a fonte
até secar a fonte

ele é funcionário completo
e ela aprende a fazer suspiros
vão viver sob o mesmo teto
até trocarem tiros
até trocarem tiros

ele tem um caso secreto
ela diz que não sai dos trilhos
vão viver sob o mesmo teto
até casarem os filhos
até casarem os filhos
ele fala de cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida
até que alguém decida

ele tem um velho projeto
ela tem um monte de estrias
vão viver sob o mesmo teto
até o fim dos dias
até o fim dos dias

ele às vezes cede um afeto
ela só se despe no escuro
vão viver sob o mesmo teto
até um breve futuro
até um breve futuro

ela esquenta a papa do neto
e ele quase que fez fortuna
vão viver sob o mesmo teto
até que a morte os una
até que a morte os una.

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8) Quando Duran descobre que o inspetor Chaves, seu velho devedor, é o padrinho e melhor amigo do inimigo público nº 1, ameaça armar um escândalo fatal para a reputação do chefe de polícia. Conhecedor do carater de Chaves, não tem dúvidas de que, a ser demitido do emprego público, ele vai preferir renunciar à amizade de Max Overseas. E eliminar sumariamente o ex-amigo. É o que Teresinha escuta, entre outras delicadezas, quando passa na casa dos pais para apanhar uns trecos. E, interpelada pela mãe sobre os motivos que a levaram a casamento tão desastroso, sai-se com uma resposta mais desastrosa ainda: casou-se por amor.

TERESINHA (Zizi Possi)


o primeiro me chegou
como quem vem do florista
trouxe um bicho de pelúcia
trouxe um broche de ametista
me contou suas viagens
e as vantagens que ele tinha
me mostrou o seu relógio
me chamava de rainha
me encontrou tão desarmada
que tocou meu coração
mas não me negava nada
e assustada eu disse não.

o segundo me chegou
como quem chega do bar
trouxe um litro de aguardente
tão amarga de tragar
indagou o meu passado
e cheirou minha comida
vasculhou minha gaveta
me chamava de perdida
me encontrou tão desarmada
que arranhou meu coração
mas não me entregava nada
e assustada eu disse não

o terceiro me chegou
como quem chega do nada
ele não me trouxe nada
também nada perguntou
mas sei como ele se chama
mas entendo o que ele quer
se deitou na minha cama
e me chama de mulher
foi chegando sorrateiro
e antes que eu dissesse não
se instalou feito um posseiro
dentro do meu coração.

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9) O autor da peça, João Alegre, volta ao palco e pede licença para se auto-homenagear.

HOMENAGEM AO MALANDRO (Moreira da Silva)


eu fui fazer
um samba em homenagem
a nata da malandragem
que conheço de outros carnavais
eu fui à Lapa
e perdi a viagem
que aquela tal malandragem
não existe mais

agora já não é normal
o que dá de malandro
regular, profissional
malandro com aparato
de malandro oficial
malandro candidato
a malandro federal
malandro com retrato
na coluna social
malandro com contrato
com gravata e capital
que nunca se dá mal
mas o malandro pra valer
não espalha
aposentou a navalha
tem mulher e filho
e tralha e tal
dizem as más línguas
que ele até trabalha
mora lá longe e chacoalha
num trem da central

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10) Teresinha diz a Max que o Tigrão virá prendê-lo, sob pressão de Duran. Promete cuidar dos negócios enquanto ele tira umas férias. E é num bordel do próprio Duran que Max vai procurar refúgio. Max goza de excelente prestígio entre as raparigas de Duran. Como a Mimi Bibelô, por exemplo, que o recebe cantando com falso desdém:

FOLHETIM (Nara Leão)


se acaso me quiseres
sou dessas mulheres
que só dizem sim
por uma coisa à toa
uma noitada boa
um cinema, um botequim

e se tiveres renda
aceito uma prenda
qualquer coisa assim
como uma pedra falsa
um sonho de valsa
ou um corte de cetim

e eu te farei as vontades
direi meias verdades
sempre à mei-luz
e te farei, vaidoso, supor
que és o maior
e que me possuis

mas na manhã seguinte
não conte até vinte
te afasta de mim
pois já não vales nada
és página virada
descartada do meu folhetim

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11) Mas o prestígio de Max não impede que essas mulheres acatem ordens superiores. Duran induziu-as a participar de uma passeata estrondosa, e elas estão preparando cartazes com o seguinte poema: "Abaixo a corrupção! Max e Chaves na prisão!" Max tenta comprá-las com promessas mirabolantes. E brinda as meninas com meias de náilon, última novidade no mundo civilizado. É a festa.

AI, SE ELES ME PEGAM AGORA (Frenéticas)


ai, se mamãe me pega agora
de anágua e combinação
será que ela me leva embora
ou não
será que ela vai ficar sentida

será que vai me dar razão
chorar sua vida vivida
em vão

será que faz mil caras feias
será que vai passar carão
será que calça as minhas meias
e sai deslizando
pelo salão

eu quero que mamãe me veja
pintando a boca em coração
será que ela vai morrer de inveja
ou não

ai, se o papai me pega agora
abrindo o último botão
será que ele me leva embora
ou não

será que fica enfurecido
será que vai me dar razão
chorar o seu tempo vivido
em vão

será que ele me trata a tapa
e me sapeca um pescoção
ou abre um cabaré na Lapa
e ai me contrata
como atração

será que ele me põe de castigo
será que ele me estende a mão
será que o pai dança comigo
ou não

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12) Talvez alertado por algum alcagüete, o inspetor Chaves, seguido de Dona Vitória, entra no bordel e prende Max. Dona Vitória faz questão de exibir os cartazes da passeata, para que o Tigrão fique ciente de que lhe convém executar a tarefa até o fim. Max está abandonado. Seus próprios comparsas, despedidos pela nova patroa a executivíssima Teresinha Overseas, estão às ordens de Duran para a eventualidade de se concretizar a passeata. Alguém comenta que aquilo é uma traição a Max. Mas a opinião geral, entre a arraia-miuda, é a de que patrão é tudo igual. E o patrão agora é Duran.

SE EU FOSSE O TEU PATRÃO (Turma do Funil)


eu te adivinhava
e te cobiçava
e te arrematava em leilão
te ferrava a boca, morena
se eu fosse o teu patrão

ai, eu te tratava
como uma escrava
ai, eu não te dava perdão
te rasgava a roupa, morena
se eu fosse o teu patrão

eu te encarcerava
te acorrentava
te atava ao pé do fogão
não te dava sopa, morena
se eu fosse o teu patrão

eu te encurralava, te dominava
te violava no chão
te deixava rota, morena
se eu fosse o teu patrão

pois eu te pegava direito
soldo de cidadão
punha uma medalha em teu peito
se eu fosse o teu patrão

o tempo passava sereno
e sem reclamação
tu nem reparava, moreno
na tua maldição

e tu só pegava veneno
beijando a minha mão
ódio te brotava, moreno
ódio do teu irmão

teu filho pegava gangrena
raiva, peste e sezão
cólera na tua morena
e tu não chiava não

eu te dava café pequeno
e manteiga no pão
depois te afagava, moreno
como se afaga um cão

eu sempre te dava esperança
dum futuro bão
tu me idolatrava, criança
se eu fosse o teu patrão

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13. Com a prisão de Max, o inspetor Chaves vai pedir a Duran que suspensaos preparativos para a passeata. Mas Duran ainda não está satisfeito. Ele quer ver Teresinha viúva, urgentemente. Enquanto isso a filha do Tigrão, Lúcia Chaves visita Max na cadeia. Lúcia, para Max é como se fosse uma sobrinha. Lúcia é um velho xodó de Max que, aliás, cansou de carregá-la no colo, ou por outra, Lúcia é bastante íntima de Max e por sinal está esperando um filho dele. Max promete levá-a ao altar e ao cartório, pretendendo mesmo passar a lua-de-mel em Hollywood, desde que ela o liberte. Lúcia está quase cedendo quando entra Teresinha. Lúcia e Teresinha não se dão bem.

O MEU AMOR (Elba Ramalho & Marieta Severo)


o meu amor
tem um jeito manso que é só seu
e que me deixa louca
quando me beija a boca
a minha pele toda fica arrepiada
e me beija com calma e fundo
até minh'alma se sentir beijada

o meu amor
tem um jeito manso que é só seu
que rouba os meus sentidos
viola os meus ouvidos
com tantos segredos
lindos e indecentes
depois brinca comigo
ri do meu umbigo
e me crava os dentes

eu sou sua menina, viu?
e ele é o meu rapaz
meu corpo é testemunha
do bem que ele me faz

meu amor
tem um jeito manso que é só seu
de me deixar maluca
quando me roça a nuca
e quase me machuca
com a barba mal feita
e de pousar as coxas
entre as minhas coxas
quando ele se deita

o meu amor
tem um jeito manso que é só seu
de me fazer rodeios
de me beijar os seios
me beijar o ventre
e me deixar em brasa
desfruta do meu corpo
como se o meu corpo
fosse a sua casa

eu sou sua menina, viu?
e ele é o meu rapaz
meu corpo é testemunha
do bem que ele me faz

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14. Teresinha é enxotada e Lúcia não resiste a Max. Solto, Max dá-lhe um beijo e some. Tigrão tem uma crise de nervos, manda revirar a cidade, mas não encontra Max. Vai à casa dos Duran que estão igualmente enfurecidos. Com a fuga de Max, a passeata sai mesmo e o inspetor estará arruinado. A não ser que, por milagre ... É quando surge Genival, um funcionário de Max, passador de perfumes, jóias sedas e cristais. Genival às vezes também se chama Geni e gosta de trocar confidências com Dona Vitória. Rápida, Vitória pergunta pelo paradeiro de Max. Geni quer tomar conhaque. Duran insiste em saber de Max. O chefe de políca implora, aos prantos. Falta uma hora para sair a passeata, mas Geni não tem pressa. Exige recompensa, com juros, por várias informações anteriores. Pede outro conhaque e vai cobrando o que quer. É atendido em tudo. Enfim, antes de entregar Max, acha que o clima está maravilhoso para fazer um showzinho. E, para desespero de seus ouvintes, canta uma história que não acaba mais.

GENI E O ZEPELIM (Chico Buarque)


de tudo que é nego torto
do mangue e do cais do porto
ela já foi namorada
o seu corpo é dos errantes
dos cegos dos retirantes
é de quem não tem mais nada
dá-se assim desde menina
na garagem, na cantina
atrás do tanque, no mato
é a rainha dos detentos
das loucas, dos lazarentos
dos moleques do internato
e também vai amiúde
co'os velhinhos sem saúde
e as viúvas sem porvir
ela é um poço de bondade
e é por isso que a cidade
vive sempre a repetir
joga pedra na Geni joga pedra na Geni
ela é feita prá apanhar
ela é boa de cuspir
elá dá para qualquer um
maldita Geni!

um dia surgiu, brilhante
entre as nuvens, flutuante
um enorme zepelim
pairou sobre os edifícios
abriu dois mil orifícios
com dois mil canhões assim
a cidade apavorada
se quedou paralisada
pronta pra virar geléia
mas do zepelim gigante
desceu o seu comandante dizendo: mudei de idéia
quando vi nesta cidade
tanto horror e iniquidade
resolvi tudo explodir
mas posso evitar o drama
se aquela formosa dama
esta noite me servir

essa dama era Geni
mas não pode ser Geni
ela é feita pra apanhar
ela é boa de cuspir
ela dá pra qualquer um
maldita Geni

mas de fato, logo ela
tão coitada e tão singela
cativara o forasteiro
o guerreiro tão vistoso
tão temido e poderoso
era dela, prisioneiro
acontece que a donzela
e isso era segredo dela
também tinha seus caprichos
e a deitar com homem tão nobre
tão cheirando a brilho e cobre
preferia amar com os bichos
ao ouvir tal heresia
a cidade em romaria
foi beijar a sua mão
o prefeito de joelhos
o bispo de olhos vermelhos
e o banqueiro com um milhão

vai com ele, vai, Geni
vai com ele, vai, Geni
você pode nos salvar
você vai nos redimir
você dá pra qualquer um
Bendita Geni

foram tantos os pedidos
tão sinceros, tão sentidos
que ela dominou seu asco
nessa noite lancinante
entregou-se a tal amante
como quem dá-se ao carrasco
ele fez tanta sujeira
lambuzou-se a noite inteira
até ficar saciado
e nem bem amanhecia
partiu numa nuvem fria
com seu zepelim prateado
num suspiro aliviado
ela se virou de lado
e tentou até sorrir
mas logo raiou o dia
e a cidade em cantoria
não deixou ela dormir

joga pedra na Geni
joga bosta na Geni
ela é feita pra apanhar
ela é boa de cuspir
ela dá pra qualquer um
maldita Geni

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15. Capturado, Max reconhece que está no fim.Nem se comove com a visita de Teresinha que veio lhe participar a criação de uma promissora firma de importações, a Maxteertex S.A. O casal se despede para sempre.

PEDAÇO DE MIM (Gal Costa & Francis Hime)


Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

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16. Tigrão só espera a dissolução da passeata para liquidar Max. Vitória e Duran vão dispersar a multidão. Só que a multidão, a essa altura, ninguém mais dispersa. Aos assalariados de Duran, juntaram-se todos os marginais e descontentes do Rio de Janeiro, ou seja, por baixo, 90% da população. Incapaz de conter a massa, Vitória suspende o espetáculo. Manda descer o pano, acender as luzes, cortar o som e multar os atores. Duran vai catar o autor da peça e passar-lhe uma descompostura. João Alegre é aconselhado a refazer o final do espetáculo, criar um happy end, um gran finale de acordo com o que se espera de uma ópera.

ÓPERA (Cantores Líricos & Turma do Funil)


JOÃO ALEGRE
Telegrama
Do Alabama
Pro senhor
Max Overseas
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

TERESINHA
Chegou a confirmação
Da United coisa e tal
Que nos passa a concessão
Para o náilon tropical

MAX
Então nós vamos montar
Em São Paulo um fabricão

TERESINHA
Depois vamos exportar
Fio de náilon pro Japão

MAX
Sei que o náilon tem valor
Mas começa a me enjoar
Tive idéia bem melhor
Nós vamos ramificar

TERESINHA
Já ramifiquei, ha ha
Fiz acordo com a Shell
Coca-Cola, RCA
E vai ser sopa no mel

CORO
Que beleza
Que riqueza
Tá chovendo
Da matriz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

MAX
Que tal juntarmos
Esses capitais
Pra abrir um banco
Em Minas Gerais

TERESINHA
Que brilhante idéia, meu amor
Que plano original
Com fundos no exterior
Você fundar
Um banco nacional

CAPANGAS
E eu que já fui
um pobre marginal
Sem documento
E sem moral
Hei de ser um bom profissional
Vou ser quase um doutor
Contínuo da senhora
E do senhor
Bancário ou contador

CORO
Que sucesso
O progresso
Corta o mal
Pela raiz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

CHAVES
Irmão
Nem começar eu sei
Receio te inibir

MAX
Tua vontade é lei
É falar
É mandar
É exigir

CHAVES
Sei que
Num mundo tão cruel
Cheio de inveja e fel
Não lhe fará mal
Ter à mão
Proteção
Policial
Quer os meus préstimos?

MAX
Eu acho ótimo

BARRABÁS
Serve um acólito?

MAX
Também vou te empregar

LÚCIA
Eu não
Tenho com quem deixar
Meu filho que já vem

MAX
Barrabás é um par
Exemplar
Quer casar

BARRABÁS
E adoro neném

CORO
Maravilha
Que família
Dois pombinhos
E um petiz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

VITÓRIA
Só tenho um único
Breve reparo
A tão preclaro
Genro viril
É o esquecimento
Do sacramento
Afinal
Se casou
Só no civil
Oh oh oh
Oh oh

oh
Só no civil
Oh oh oh
Oh oh oh
Só no civil

MAX
Mas nesse ínterim
Mudei de crença
Já peço a benção
No santo altar

VITÓRIA
Que maravilha
Não perco a filha
E um verão
Bonitão
Eu vou ganhar
Ah ah ah
Ah ah ah
Eu vou ganhar
Ah ah ah
Ah ah ah
Eu vou ganhar

DURAN
Minha filha eu desejo pedir teu perdão

TERESINHA
Oh, meu pai, isso é bom demais!
Finalmente! Até que enfim!

DURAN
Não sei como fui pra você tão durão
Tão mandão, tão sem coração
Tão malvado assim

MAX
Meu sogro, o senhor não sabe
Quanta alegria
Me dá, ao dizer que já se juntou
Aos nossos

DURAN
Só Deus sabe há quanto tempo
Eu tanto queria
Poder apertar esses ossos

CORO
Que alegria
Quem diria
Como os grandes
São gentis
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

DURAN
Não quero ser
Nas suas costas um fardo
Porém, talvez
Eu necessite um resguardo

MAX
Tua instituição
Tão tradicional
Vai ter um padrão
Moderno
Cristão e ocidental

FUNCIONÁRIAS
Vamos participar
deE Durand essa evolução
Vamos todas entrar
Na linha de produção
Vamos abandonar
O sexo artesanal
Vamos todas amar
Em escala industrial

TODOS
O sol nasceu
No mar de Copacabana
Pra quem viveu
Só de café e banana
Tem gilete, Kibon
Lanchonete, Neon
Petróleo
Cinemascope, sapólio
Ban-lon
Shampoo, tevê
Cigarros longos e finos
Blindex fumê
Já tem Napalm e Kolinos
Tem cassete e rai-ban
Camionete e sedan
Que sonho
Corcel, Brasília, plutônio
Shazam
Que orgia
Que energia
Reina a paz
No meu país
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz

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17) João Alegre dá seu último recado.

O MALANDRO Nº 2 (João Nogueira)


O malandro/Tá na greta
Na sargeta/Do país
E quem passa/Acha graça
Na desgraça/Do infeliz

O malandro/Tá de coma
Hematoma/No nariz
E resgando/Sua bunda
Uma funda/Cicatriz

O seu rosto/Tem mais mosca
Que a birosca/Do Mané
O malandro/É um presunto
De pé junto/E com chulé

O coitado/Foi encontrado
Mais furado/Que Jesus
E do estranho/Abdômen
Desse homem/Jorra pus

O seu peito/Putrefeito
Tá com jeito/De pirão
O seu sangue/Forma lagos
E os seus bagos/Estão no chão

O cadáver/Do indigente
É evidente/Que morreu
E no entanto/Ele se move
Como prova/O Galileu




NOTA IMPORTANTE.

A TERRA DO NUNCA não tem e nunca teve qualquer finalidade comercial.
Este sítio da rede mundial tem por objetivo, disponibilizar a todos, objetos e principalmente ENSINAMENTOS a principiantes de qualquer grau.
A cultura é a melhor das formas de ensinamento e, neste caso específico, a obra de CHICO BUARQUE DE HOLANDA, representa um trabalho cultural de extrema importância.
Sei muito bem que estou copiando matéria elaborada por profissionais de alto nível, porém, minha intenção é a de divulgar a obra e seus autores, mesmo porque a matéria que aqui reproduzo já não se encontra disponível no mercado.
Mesmo assim, se os detentores dos direitos autorais julgarem que extrapolei, por favor, entrem em contado comigo que, imediatamente retirarei a página do ar. Novamente repito, na TERRA DO NUNCA, em suas mais de 300 folhas, não há qualquer referência a utilização comercial.
Por oportuno esclareço que as músicas disponíveis são tecnicamente reduzidas e não permitem seu aproveitamento em qualquer meio que não seja o uso em computadores, os atributos das músicas não permitem sua gravação em CDs de música.
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